constipação

Falando da constipação intestinal na Epidermolise Bolhosa

Epidermólise Bolhosa (EB) integra um grupo heterogêneo de doenças, que se caracteriza pelo desenvolvimento de bolhas em resposta ao mínimo trauma mecânico na pele. É uma doença rara, que tem caráter hereditário, com diferentes modos de transmissão genética, podendo ter sido herdada de um ou ambos os pais, ou ter ocorrido espontaneamente.

A pele é constituída por camadas, a mais superficial é a epiderme e a mais profunda a derme e entre elas existe a junção dermo-epidérmica. Cada uma dessas camadas está aderida à outra por proteínas, que funcionam como uma espécie de “colinha”, mantendo a estrutura da pele firme e integra.

A EB ocorre porque essas proteínas são defeituosas e o atrito faz as camadas deslizarem sobre si mesmas, levando a formação das bolhas. Há diferentes quadros clínicos, que dependem da mutação genética envolvida e que por sua vez determina a camada onde ocorre a bolha.

A mucosa, que é um tipo de pele que reveste os órgãos internos “ocos”, (trato gastrointestinal e respiratório) também está acometida em alguns tipos de EB.
Constipação intestinal é definida como a eliminação de fezes duras, grossas, com esforço ou dor. O intervalo de tempo entre as evacuações pode variar de até mais de 3 dias ou até diário. Crianças que evacuam diariamente pequenas bolinhas de fezes com dor e esforço já são consideradas constipadas.

A eliminação de fezes duras e grossas pode acarretar dor anal e fissuras anais, que são agravadas nas crianças com EB com a formação de bolhas.

Desta forma, é muito frequente observarmos comportamento de retenção nessas crianças. Isso ocorre porque a criança passa a segurar para não evacuar, pois tem medo da dor. E isso por sua vez piora a constipação. Na verdade, é um ciclo vicioso que precisa ser quebrado.

A etiologia da constipação intestinal é, no entanto, multifatorial. Além da dor ao evacuar, a ingestão alimentar é por vezes pequena e pobre em fibras. A ingestão de água também é pequena, principalmente porque as crianças com EB tem necessidade de
líquidos aumentada em função das perdas aumentadas e insensíveis através da pele.

Dessa forma, uma regra básica seria calcular no mínimo em torno de 100 ml para cada quilo por dia para uma criança até 10 kg, ao redor de 1500ml para até 20 kg e 2000ml para até 30 kg.

A dieta ideal para constipação deveria ser com bastante fibras, o que nem sempre é fácil. As crianças em geral já têm grande dificuldade com “os verdinhos” e é ainda mais difícil, principalmente para quem tem EB. A boca e o esôfago têm lesões e muitas vezes as folhas enroscam e não descem, podendo até dar náusea. Na maioria das vezes as folhas estão cozidas e processadas para poderem ser ingeridas e não machucarem o esôfago. No entanto, outras fibras como farelos de trigo, aveia ou quinoa podem ser usadas cozidas com os alimentos.

Alimentos laxantes, que não as fibras, são interessantes pois ajudam sem entalarem. Nesses casos temos o mamão, a ameixa, a laranja, que pode até ser na forma de suco. Colocar mais óleo ou azeite na comida depois de pronta é interessante. Aumenta o aporte calórico e ajuda no intestino. Só não podemos usar a colher de óleo direto pura na boca ou aqueles laxantes oleosos. Pelo comprometimento do esôfago, podem ocorrer engasgos e o óleo ser aspirado para o pulmão.

O uso de laxantes irritativos por boca deve ser muito cuidadoso e somente para desimpactar as fezes que estão presas. Não devem ser usados de rotina.
O uso de supositórios e outros laxantes por via retal também precisam ser usados de modo criterioso. Podem machucar mais ainda a região anal e piorar a dor e com isso o comportamento de retenção.

Os melhores laxantes quando a dieta e a correção de volume de líquidos não resolver, são aqueles que retém água no bolo fecal, pois as fezes saem macias e sem machucar.

O uso de pomadas oleosas quando for evacuar, para manter a região anal sempre lubrificada, é interessante. Uso de pomadas com cicatrizantes e anestésicos também ajudam para minimizar a dor e melhorar a constipação.

Dra Izaura Ramos Assumpção – Gastroenterologista Pediátrica