O que é Terapia Gênica

As doenças monogênicas são causadas por mutações em um único gene, e todas as células do indivíduo carregam estas mutações. Embora as incidências sejam relativamente raras, milhões de pessoas do mundo são afetadas devido a existência de mais de dez mil doenças monogênicas. Segundo a Organização Mundial de Saúde (www.who.int), a prevalência global de doenças monogênicas é aproximadamente 1 a cada 100 nascimentos. No Canada, os setores pediátricos chegam a dedicar 40 % do tempo de trabalho para tratarem dos pacientes com doenças monogênicas.

Além disso, estas doenças são responsáveis por uma grande mortalidade nos primeiros anos de vida devido as manifestações patológicas graves já no nascimento, diagnósticos tardios e imprecisos, e falta de informações detalhadas de fisiopatologia que dificulta tratamentos adequados. Como não há cura por meio de medicina tradicional, os tratamentos são paliativos para retardar a evolução patológica e amenizar os sintomas.

A terapia gênica baseia-se no uso de genes como um fármaco para tratamento de doenças. Para realizar terapia gênica é preciso definir 3 componentes: gene terapêutico, vetor e forma de administração do vetor.

Geralmente, um gene terapêutico consiste de um cDNA (DNA complementar) com a sequência de ORF (fase de leitura aberta) completa. No entanto, com a descoberta da regulação da expressão de genes por RNAi (RNA de interferência), hoje miRNA, siRNA e outros tipos de RNAs estão sendo usados no campo de terapia gênica.

Como a administração de genes na forma de DNA ou RNA num paciente leva a degradação rápida destes ácidos nucleicos, os vírus ou plasmídeos são usados como carreadores destes genes. Entre os vetores virais mais usados estão retrovírus, lentivírus, adenovírus e vírus adeno-associado. Enquanto que os plasmídeos podem ser aplicados diretamente no paciente ou complexado com lipossomo ou policátions, formando lipoplexo ou poliplexo, respectivamente.

A administração de um vetor carreando um gene terapêutico pode ser feita diretamente no paciente cujo procedimento é denominado de terapia gênica in vivo. Quando a taxa de transferência gênica in vivo é baixa ou a transferência de um vetor para uma população celular específica é difícil, as células alvo podem ser retiradas, modificadas in vitro com um vetor, depois as células modificadas geneticamente administradas ao paciente; este procedimento é conhecido por terapia gênica ex vivo.

Desde o primeiro ensaio clinico de terapia gênica realizado nos Estados Unidos em 1990, até hoje mais de 2.356 estudos clínicos de terapia gênica foram registrados no sítio http://www.abedia.com/wiley/, sendo 235 para doenças monogênicas. O primeiro estudo clínico de terapia gênica foi para tratamento de SCID-ADA (imunodeficiência severa combinada causa pela deficiência da adenosina deaminase), que utilizou os linfócitos dos próprios pacientes modificados por um vetor retroviral carreando o gene ADA selvagem. Houve melhora, mas a reposição contínua da enzima ADA foi necessária. Em 2000, um grupo da França tratou os pacientes com a SCID-X1 (imunodeficiência severa combinada-ligada ao X) com as células-tronco da medula óssea modificadas pelo vetor retroviral carreando o gene IL2RG. Apenas uma infusão das células modificadas geneticamente foi suficiente para curar os dois pacientes tratados. Foi um marco histórico na medicina porque o feito abriu a possibilidade de curar outras doenças monogênicas. No entanto, a terapia gênica de doenças monogênicas ainda não é uma rotina médica porque para cada doença monogênica há um gene específico mutado que resulta em diferentes fisiopatologias. Portanto, há necessidade de validar protocolos específicos de terapia gênica para cada doença monogênica.

Além disso, a tecnologia de transferência gênica usada nos estudos clínicos hoje não corrigi o gene mutado, mas cópias do gene selvagem são inseridas no genoma de células do paciente aleatoriamente, e isto pode provocar superexpressão de oncogenes e causar tumorigênese. A tecnologia de edição genômica permite correção precisa de genes mutados sem interferir outros genes, mas esta tecnologia ainda está na fase de experimentação pré-clínica.

Em 2014, a empresa holandesa uniQure lançou o Glybera, o primeiro remédio a base de terapia gênica para tratamento de uma doença monogênica; a deficiência da lipoproteína lipase causada pelas mutações do gene que codifica a lipoproteína lipase.